Tuesday, December 1, 2009

Não meu, não meu é quanto escrevo

Não meu, não meu é quanto escrevo.
A quem o devo?
De quem sou o arauto nado?
Por que, enganado,
julguei ser meu o que era meu?
Que outro mo deu?
Mas, seja como for, se a sorte
for eu ser morte
de uma outra vida que em mim vive,
eu, o que estive
em ilusão toda esta vida
aparecida,
sou grato ao que do pó que sou
me levantou
e me fez nuvem um momento
de pensamento,
ao de quem sou, erguido pó,
símbolo só.

- Fernando Pessoa

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